Grand Chase – Ascensão e fim inesperado


(TODO CONTEÚDO DESSE TEXTO PODE SER VISTO NO VÍDEO ACIMA)
O sucesso de Grand Chase no Brasil é uma das coisas mais intrigantes quando falamos de videogame no nosso país. É um jogo totalmente asiático, cheio de personagens e tramas bem ao estilo anime. Não parece ser algo que os brasileiros vão gostar, ainda mais considerando que RPGs orientais para consoles nunca foram muito populares por aqui. Mesmo assim, Grand Chase era muito jogado no tempo das lan houses e continuou bastante relevante por aqui até o seu fim inesperado. Mas como tudo isso começou? Por que os brasileiros gostaram tanto do jogo? E por que ele acabou?

Grand Chase

Antes de responder essas perguntas, vamos relembrar o que esse jogo era. Desenvolvido pela KOG Games, Grand Chase faz parte do “grande boom” dos RPGs online sul coreanos na primeira década do ano 2000 e conquistou seu público por pegar características interessantes dos RPGs como a possibilidade de passar de nível e equipar itens, mas entregando uma jogabilidade totalmente diferente, parecida com jogos estilo briga de rua como Final Fight e Golden Axe, jogos você sai batendo em um monte de inimigos pela frente. Isso era totalmente diferente de diversos outros RPGs para computador da época, pois além da visão lateral, a habilidade do jogador no controle do personagem contava bastante, mas o mais impressionante é que o jogo era possível. Hoje em dia não parece nada demais o que Grand Chase fez, mas lá em 2006 quando foi lançado no Brasil, um jogo com 4 personagens na mesma sala fazendo movimentos rápidos e precisos, com todos os jogadores conseguindo entender a partida, era um feito que parecia ser impossível, ainda mais funcionando nas conexões lentas que tínhamos no nosso país na época.

Antes de chegar ao Brasil, Grand Chase teve que vencer um oponente de peso, o “Gunz the Duel”, pois a level up, uma famosa distribuidora de jogos no país, estava interessada em trazer um jogo que fosse diferente de Ragnarok Online, o MMORPG que havia sido o sucesso anterior da empresa. Por esse motivo, ficaram divididos entre Gunz the Duel, um jogo de tiro frenético o qual o jogador poderia subir nas parede e Grand Chase, que havia divertido bastante os funcionários da Level UP, embora não parecia que um jogo estilo anime bonitinho chamaria a atenção do público. Então resolveram fazer o teste e apesar dos testadores terem gostado de Gunz, o jogo favorito foi o Grand Chase.

Gunz the duel

Em 2006, o Brasil estava vivendo o final da era das Lan Houses, locais que hoje só servem para você imprimir um documento importante quando não tem impressora ou para usar quando seu computador não está funcionando, mas nessa época, eram locais cheios de pessoas que pagam hora para desfrutar os melhores jogos de computadores e como ainda era um pouco complicado conectar consoles a internet, as melhores experiências multiplayer estavam nos PCs. Nesse ambiente que vários jogadores conheceram Grand Chase, um jogo com partidas rápidas e satisfatórias, ideal para jogar quando você está com o tempo limitado. Quando as conexões ficaram um pouco mais rápidas e acessíveis, o jogo se espalhou rapidamente, virando um dos maiores sucessos no país.

A popularidade do jogo não foi atoa, pois as diferenças de outros jogos online da época eram evidentes. Sua jogabilidade parecia simples, mas a combinação dos golpes deixavam as coisas um pouco mais complexas, fazendo que o jogador que dominasse as habilidades do personagem tivesse vantagem, isto é, o jogo dependia muito mais da perícia do jogador do que dos itens. Esses itens você os equipava vestido-os nos personagens, fazendo com que o jogador percebesse a progressão do jogo muito mais claramente com o visual do seu personagem que ficava cada vez mais extravagante.

Grand Chase

Inicialmente só havia 3 personagens, mas logo surgiram vários, inclusive uma feita especialmente para o Brasil, o país que com o tempo foi se tornando o lugar que o jogo mais fazia sucesso. Para agradar o público brasileiro foi criada a Lin, seguindo orientações do que os fãs mais queriam em uma personagem, sendo que esses fãs escolheram toda a aparência, personalidade e arma da Lin. Ela ficou bem diferente e chamativa, mas não consegui entender com uma guerreira que usa leque foi feita para o gosto brasileiro. Os personagens que já existiam ganhavam novas classes que liberavam árvores de habilidades que por sua vez permitiam mais opções de golpes especiais.

O trabalho de localização do jogo foi excelente. Contrataram dubladores de peso para fazer as vozes. Foi algo tão marcante que se eu falar algo como “Rajada de flechas” ou “Bola de fogo”, se você jogou Grand Chase, provavelmente sua mente fez você ouvir mentalmente a voz das personagens no lugar da minha.

Os modos de jogo apelavam para todos os gostos. Se você gosta de cooperação, poderia entrar em uma sala com até 4 jogadores para progredir no enredo do game, uma outra diferença interessante de Grand Chase, pois outros rpgs online da época não tinham trama, eram só você fazendo a sua história, já no Grand Chase, além das boas lembranças das jogatinas com amigos e desconhecidos, você poderia curtir uma historinha bastante simples e pouco original, com personagens estereotipados, embora carismáticos. Uma parcela do público adora esse enredo, mesmo ele não sendo nada demais, por isso, a Level Up até contratou brasileiros para adaptar a história do jogo para quadrinhos e ficou um trabalho bem acima da média, com uma história cativante, cheia de quebras da quarta parede, com personagens que sabem que estão em uma história em quadrinhos. A intenção dessas histórias produzidas no Brasil não eram só entreter, mas ajudar a vender a revista da Level UP, que contava com cds de instalação de Grand Chase para aqueles que não tinham uma internet muito boa em casa. Como essas histórias não passavam de propagandas, faziam questão de mostrar todos os cenários, personagens e golpes do jogo, e os fãs adoravam isso.

Sala de espera do Grand Chase

O modo campanha depois de um tempo ficava um pouco repetitivo, por isso grande parte dos jogadores gostavam mesmo é de enfrentar adversários reais, outras pessoas tão competitivas quanto elas e esse modo de jogo rapidamente virou um mais populares por aqui. Alguns se dedicavam bastante, tanto que o Brasil até teve um time oficial de Grand Chase e foi competir em um campeonato mundial.

Mas aos poucos Grand Chase foi acabando. O princípio do fim lento de doloroso foi com o lançamento do Elsword, um título de ação 2D, com elementos de RPG, um sucessor espiritual de Grand Chase. Os dois jogos eram bastante parecidos, por isso no mundo todo o público começou a mudar para o game mais novo, o Elsword e como eles eram feitos pela mesma empresa, aos poucos a equipe do Grand Chase foi ficando menor, o jogo ganhando atualizações menos frequentes e pouco cuidado no equilíbrio dos personagens. Não se sabe ao certo se foi desleixo ou algo natural, mas quanto mais atualizações o jogo recebia, mas ele ficava quebrado. Por ser um jogo de graça, ele já era um pouco desequilibrado por causa dos itens premium vendidos com dinheiro real, mas com adições de personagens, itens, classes e árvores de habilidade, o competitivo perdeu bastante força internacionalmente.


Bom, isso aconteceu em quase todos os lugares, menos no Brasil. Em 2015, apesar do jogo não estar tão popular quanto antigamente e não receber muitas novidades, a comunidade continuava firme e forte, até ser surpreendida com o encerramento do desenvolvimento do jogo e consequentemente todos os servidores pelo mundo seriam desligados, inclusive o do Brasil. A Level Up até fez uma oferta de compra do jogo, mas a KOG rejeitou. Fãs entraram em contato com a KOG por e-mail e supostamente a resposta foi que a Level UP não estava pronta para continuar o desenvolvimento do jogo, pois não tinha competência e nunca tinha feito um jogo, então consequentemente ele seria mal administrado. Não encontrei nenhum lugar oficial que divulgou essa nota, mas ela se espalhou por vários fóruns na internet como se fosse verdade. De certa forma, essa nota tinha razão. A Level UP era boa em distribuir jogos, deixá-los populares e até adaptá-los para culturas de vários países, mas não desenvolvia e também tinha um histórico de quebrá-los totalmente com políticas pouco acertadas de monetização.

Jogadores começaram a fazer uma campanha com a hagtag #LongLiveTheChase que pipocou em todas as redes sociais, unindo fãs de todas as eras do game, mas nada adiantou. A KOG não venderia e não continuaria Grand Chase. Assim ele definitivamente morreu.

É, eu sei o que muitos de vocês estão pensando. Sim, realmente existem servidores feitos por fãs online até hoje, mas nada muda o fato que não veremos mais o jogo crescer, ganhar nos personagens e histórias oficiais.

O que sobrou do Grand Chase foi o seu legado. Com base na experiência em desenvolver esse game, a KOG fez diversos outros títulos de ação online e até ressuscitou a franquia Grand Chase, em um jogo de celular que mecanicamente não lembra nada o original, mas continua a história e não é ruim, mas também não posso dizer que Grand Chase está de volta, pois é uma experiência que tem quase nenhuma relação com o original além do enredo e alguns outros poucos detalhes. Para os que querem o Grand Chase antigo de volta, só nos resta jogar em servidores privados e reviver experiências nos nossos sonhos nostálgicos, os quais, pelo visto, jamais viraram realidade.

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