Você precisa ver High Score Girl


(TODO CONTEÚDO DESSE TEXTO PODE SER VISTO NO VÍDEO ACIMA)
“Hadoukens” com certeza eram os golpes mais ouvidos nos fliperamas de todo o mundo no começo dos anos noventa com o lançamento de Street Fighter 2. O título da Capcom era uma revolução no estilo de jogos de luta um contra um, por seus personagens variados, gráficos incríveis e jogabilidade fluída. Esse jogo reacendeu todo um mercado de fliperamas que estava em baixa no período, graças a popularidade dos consoles domésticos e aqui no Brasil não foi diferente. Vários locais disponibilizavam arcades e com certeza, se você viveu essa época, deve ter depositado fichas nessas máquinas que muitas vezes se encontravam em botecos sujos, mas cheios de crianças. A gente não tinha ideia de que no futuro os arcades só poderiam ser encontrados em shoppings ou em locais “retrô”, embora em alguns lugares do mundo como no Japão, essa cultura de fliperamas ainda continua. Para explicar como isso começou na terra do sol nascente e mostrar para o mundo como foi a recepção japonesa dos clássicos dos videogames, um mangá chamado High Score Girl foi feito e logo depois ganhou adaptação para anime, que não chamou muito a atenção do público otaku no lançamento, mas felizmente a Netflix adquiriu os direitos de exibição da obra, com direito até a dublagem em português e eu resolvi assistir. Antes de ver, tive um pouco de preconceito, pois parecia mais uma daquelas obras que abusam da nostalgia para entregar algo meio vazio, porém, para a minha surpresa, digo que é uma das melhores coisas que vi em 2018.

Ambientado no começo da febre do Street Fighter 2, High Score Girl conta a história de Haruo, um viciado em videogames que acredita ser o melhor, até ser derrotado por uma garota misteriosa muito calada. Inconformado com a derrota, ele acaba usando truque sujos para vencer. Essa rivalidade entre esses dois personagens evolui para amizade e depois para algo mais. Já nesses primeiros momentos, você vê o quanto o autor conhece as táticas sujas da primeira versão de Street Fighter 2 e gera uma expectativa de que a série poderia ser toda assim, com desenvolvimento de personagens e contando um pouco da história dos videogames, principalmente dos arcades no Japão. A animação entrega muito mais do que prometeu, com uma temporada tão gostosa de assistir, que quando vi o tempo passar já tinha terminado.

Os personagens são simples, mas fogem dos clichês mais populares das animações japonesas, com destaque ao protagonista Haruo, o qual é tudo que mais amo e odeio em mim mesmo em relação aos videogames. Ele sempre quer conhecer novos jogos, principalmente os mais obscuros, com direito a ser fã do TurboGrafx 16, mas ao mesmo tempo, ignora tudo ao seu redor, não estudando e nem ligando para os sentimentos das pessoas. Acho que todo mundo que algum dia se dedicou aos videogames já foi um pouco como o Haruo e talvez essa seja a razão de algumas pessoas gostarem da série, mas odiarem o personagem, pois ele é uma lembrança constante do que nós jogadores já fomos e/ou podemos nos tornar.

Com o decorrer dos episódios, outra garota é introduzida na trama e fica um triângulo amoroso, feito de uma forma tão sutil e até mesmo singela, que posso dizer que meu coração de gelo, o qual há muito tempo não torcia por romances em animes, se derreteu, ainda mais vendo a relação deles com os videogames e como isso os moldam. Haruo sempre ouve conselhos imaginários de Guile, o estereótipo americano do jogo Street Fighter 2 e também o personagem que ele mais gosta. É algo um pouco exagerado, mas me faz lembrar também como eu sonhava com um jogo depois que dormia empolgado pela jogatina.

Ver a influência dos jogos com o amadurecimento dos personagens é muito interessante, mas com isso, a indústria dos videogames também evolui e High Score Girl acaba sendo também um registro histórico, mesmo que seja uma ficção. Se você é jogador, talvez já tenha esquecido como foi ver pela primeira vez um jogo de luta 3D e apesar de agora os gráficos de games como Virtua Fighter parecem toscos, na sua época eram uma coisa inimaginável de tão realista, uma sensação que esse anime vai fazer questão de te lembrar. Todo o clima dos fliperamas está na obra com direito as pessoas se reunirem em ambientes problemáticos para crianças, cheios de jogatina, com pessoas assistindo você jogando e mesmo que não seja parecido com o que a gente via no Brasil, já que aqui, no lugar de termos máquinas de arcade em casas de doces, nós jogávamos em bares dividindo espaço com alcoólatras, ainda sim é o retrato de uma época que infelizmente passou e a gente não sabia que iria acabar.

Com o decorrer da trama, além de novos jogos surgirem, os personagens também amadurecem bastante, principalmente a tímida Hidaka, apaixonada por Haruo o viciado que fica jogando na loja do pai dela. A descoberta que ela mesmo tem do seu próprio sentimento, a força de vontade de lutar pelo seu objetivo e as dificuldades de aproximar-se de um garoto imaturo, me fez torcer muito por ela, mas ao mesmo tempo, a Ono, a garota calada, que consegue se expressar muito mais jogando, também me conquistou, pois todo nerd tímido na infância era um pouco assim e com isso temos um triângulo amoroso, no qual eu só torço para todo mundo seja feliz no final.

Vi alguns comentários reclamando da série usar computação gráfica. Vou te falar que o uso está tão bem feito que só depois de uns 3 episódios que fui notar que não se tratava de uma animação feita à mão. Nunca tinha visto em uma série de tv um trabalho tão bom no uso dessa técnica para simular animação tradicional e o que foi visto aqui até poderia ser copiado por outros. Fica a dica para os estúdios de Berserk e do Príncipe Dragão. Outro aspecto técnico e até mesmo burocrático, foram os jogos que aparecem. As principais produtoras do passado cederam os direitos para os seus jogos e consoles aparecerem no anime. Veremos muitos games da Capcom, Sega, SNK, Konami, entre diversas outras empresas que marcaram presença nos anos 90, tanto nos jogos de consoles, quanto nos arcades. Na trilha sonora, meus amigos, vocês não vão acreditar, mas chamaram Yoko Shimomura, a compositora que criou as icônicas músicas de Street Fighter 2 e ficou um excelente.

Quando comecei a ver animes, toda obra me dava saudade dos personagens, principalmente as que envolviam romances. Mas com o tempo, meu coração se endureceu, pois a indústria dos animes começou a produzir obras desse estilo muito melosas ou pouco originais, pelo menos para o meu gosto. High Score Girl foi lá, usando a minha maior paixão no mundo do entretenimento, conseguiu abrir uma porta que estava fechada desde o final da segunda temporada de School Rumble e agora eu quero ver esses personagens de novo, pois a trama continua e ouvi dizer que precisaria de uma segunda temporada para finalizar tudo, já que os 3 capítulos os quais ainda vão lançar possivelmente não vão terminar o enredo, então não me decepcionem, assistam esse anime se algum dia você gostou de videogame, pois tenho certeza que você vai gostar e indique o máximo que puder, pois uma obra assim que discute a relação dos jogadores com os videogames não é algo que se vê toda hora.

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2 comentários sobre “Você precisa ver High Score Girl

  1. Obrigado! sua matéria trouxe o saudosismo, a nostalgia, a felicidade de seguir mais uma vez um desenho (anime), ou série que realmente nos deixa um sentimento de plenitude. Parece até que o criador da história conviveu comigo durante minha infância/adolescência nos anos 90. Após gravit falls pensei que nunca mais sentiria essa sublime sensação.

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  2. Pingback: High Score Girl

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